sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Memórias de um velho Jatobá ( A Passagem Do Tempo )


Meus frutos não são doces como os frutos da mangabeira, têm cheiro estranho, poupa empoeirada e gruda nos dentes. Um horror. O horror. Só crianças se aventuram... e poucos tiveram a audácia de tentar me escalar, ainda que fosse somente até meus primeiros galhos. Sou grande. Meu maior orgulho mesmo é ser a principal testemunha do tempo em uma velha fazenda, a Fazenda Velha,  perdida nos confins das Gerais.

Por estas bandas vi passar um escravo fugido de seus  senhores, caçado como fera, com os pés descalços em carne viva, comendo raízes amargas para matar a fome do corpo, se esgueirando para longe do cabresto buscando matar a fome de liberdade da alma. Vi os olhos impiedosos de seus caçadores. Ele tinha pepitas de diamantes em um embornal e as enterrou onde só meus olhos viram e ninguém ainda encontrou...

Vi as gentes chegarem com seus sonhos, suas enxadas e suas foices. Tinham suor no rosto, calos nas mãos e sonhos de uma vida melhor. Não sabiam que a vida seria curta e que a dor é uma companheira que não se menospreza. 

Ouvi os gritos das mulheres que pariam seus filhos de cócoras e ouvi seus risos felizes quando podiam, passado o desespero, comer uma galinha de parida e beber cachaça da boa, batom vermelho nos lábios vaidosos,  com um novo bebê embrulhadinho dormindo ao lado. É um menino? Melhor que seja. Mulheres sofrem muito. Mal sabiam que o sofrimento, depois do pó, é a mais democrática de todas as coisas do mundo: está distribuído igualmente para todos.

Ouvi o choro dos que ficaram inconformados com a partida dos entes queridos, tão cedo,  tão antes da hora.Com tantos compromissos e filhos.  Eles não entendiam ainda que a hora não seria de sua escolha e na noite escura fui testemunha de suas lágrimas.

Vi luzes no meio da noite, qual bolhas de sabão fosforescentes, várias, bailando a um metro do solo sob o abacateiro e duas meninas assustadas correrem para dentro de casa se perguntando - e se perguntam até hoje - que luzes seriam aquelas. Só eu sei, mas são segredos que não posso revelar. 

Um dia chegou o rádio e com ele os festivais. Minha gente cantava e torcia pela Banda de Chico Buarque. E podia até valsar ao som do Baile da Saudade...E ouvindo os acordes do The Animals, podiam até sonhar com a Casa do Sol Nascente em New Orleans...Tão longe e tão perto. 
Agora eles tinham um elo com todo o planeta. Sabiam também das tragédias daqui e de muito longe, de Belfast ao Vietnã,  de Israel ao balaço de Dallas que ceifou a vida do presidente bonito e ainda podiam ouvir a   música dos Beatles. 

Vi os amantes e seus amores proibidos que sob minha generosa sombra trocavam suas juras eternas, se amavam sobre a relva e se permitiam sonhar. Ouvi seus gemidos de prazer e de dor. A dor da separação.

E sob minha sombra, eu vi um grupo de músicos afinando seus instrumentos por horas a fio, enquanto todos esperavam  ansiosos pela Folia de Reis. Era um tempo claro e bonito. Havia alegria no ar e uma menina vestida de índia a dançar.

Vi crianças que temiam a noite, quando assombrações vivas e  mortas tentam entrar pelas suas janelas. E juntos, no meio da noite,  nós vimos uma alma penada toda vestida de branco que seguia lentamente com sua bengala atravessando o canavial. Era noite de lua clara. 

Eu vi uma menina fazendo seus três pedidos a uma estrela cadente. Não me pergunte quais pedidos foram. Apenas digo que ela foi em busca das respostas. Estavam nos seus livros? não sei. Havia livros e livros levam as pessoas para muitos lugares. Maldito Khalil Gibran, carregastes minha gente.

Um dia vi minha gente partir para nunca mais voltar. E se alguma vez vieram a passeio,   não os pude reconhecer; não eram os mesmos que partiram. Falavam de assuntos estranhos para mim, às vezes nem mesmo um olhar me dirigiam. As gentes são assim: não param, buscam sempre algo que está mais longe, enquanto eu, silencioso e mudo, tudo vejo sem julgamentos, apenas testemunho o passar do tempo. Porque julgamentos são para o Criador, que viu tudo desde o princípio. Quanto a mim, tenho apenas quinhentos anos e não sou juiz da minha gente.

Vi os córregos secarem. Não há mais os belos irmãos ingazeiros debruçados sobre a água, soltando seus frutos na corredeira...não há mais crianças se banhando em algazarra no poço que foi feito só para elas. É o "Poço que Ed fez" antes de partir. Não há mais o cheiro de refogado no ar, a fumaça das chaminés, o engenho na madrugada e a garapa gelada. Não há mais os piqueniques... 

Vi minhas queridas irmãs, árvores menores que eu, serem decepadas, divididas em toras para servir de móveis ou caixões para minha gente enquanto eu sobrevivi pela minha força, por ser demasiado grande. Tão grande, que seriam necessários pelo menos três homens feitos para me abraçar o tronco. Tão imponente que fui até motivo de disputa entre vizinhos. Aquela outra gente queria que a cerca fizesse uma curva, só para me incluir em sua propriedade. Isso é que não. Sempre fui fiel a minha gente, aquela que me amava e sonhava erguer sob minha sombra um túmulo para seus mortos. Quem sabe um dia os reencontro. Aqui estarei esperando ...

Hoje, do alto de meus quinhentos anos, nada pode me assombrar. Ainda posso ver as estrelas cadentes, mas não ouço nenhum pedido. E vejo a lua cheia e nenhum beijo ao luar...E a minha gente segue sonhando por esse mundão de Deus.

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(Foto: Jatobazeiro da Fazenda Velha)
by Aparecida Duque - jul/09

The Animals - House of the Rising Sun


















quinta-feira, 26 de setembro de 2013

Luzes da Cidade





Ao longe as luzes da cidade
Brilhando na escuridão da noite
Nos faz um apelo urgente
"Venha, aqui mora a felicidade"

Para trás ficou um lindo céu estrelado
O barulho da fonte sobre as pedras
A serra silenciosa debruçada sobre o vale
E no ar um cheiro bom de milho assado

É o começo de uma longa viagem
No caminho pedras, cipós e ventania
Nada que possa nos deter
É tempo de muita coragem

Não ha mais medo, só saudades
De um tempo que não volta mais
E uma certeza de que bem longe,
Escondida no breu da noite
Sob um lindo céu estrelado
Repousa a tal felicidade




segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Dor



Minha amiga silenciosa
Não tem hora para chegar
amorosa, não pede licença
exigente, escolhe o lugar

Me faz um afago e sussurra
Coisas que quero esquecer
Coisas que não me aliviam
Coisas que não quero  prever

Requer minha atenção e minh'alma
Que mais posso lhe oferecer?
Lhe dou  minha alegria e meus planos
Meus projetos de bem viver

Vai se aquietando e parte
Bem de leve para não me acordar
Sozinha, uma esperança e uma certeza
Teimosa, ela vai voltar...















quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Pensamentos Caboclos (I) - José Martim


No topo das colinas a névoa branca cobre tudo de mansinho, mais e mais. E "névoa na serra é chuva na terra",  já diziam os antigos, assim como "névoa na baixa é sol que racha". São só crendices.

Na estrada sinuosa de terra vermelha, José Martim vai a passos largos cumprindo a distância de oito léguas que separa a sua choupana da pequena vila de Abadia.  Vai buscar remédios para o filho do meio que ardeu em febre durante toda a noite e não deixou ninguém dormir. De preocupações e de cuidados. Coitada da Rosário, passou a noite em claro.

É preciso apertar o passo. As pernas cansadas não ajudam, mas o tempo urge. 

Os pensamentos chegam como pássaros em revoada, alguns pousam, se abancam e não têm hora de partir. Almoçam, merendam e jantam e se deixar, dormem conosco. Moram conosco. Ficam para sempre. Outros sobrevoam, chegam a dar um cumprimento  - bom dia seu moço - e se dispersam neste mundão de Deus sem deixar vestígios. O pensar não toma jeito.

"Ah, o pensar. Deus lá em cima sabe de tudo e vigia até os pensamentos. É aí que ele tem uma aliança com os homens. Com os homens todos. Até comigo.  Mesmo eu, um simples lavrador, de alpercatas, sem direito à terra própria, sem eira nem beira, iletrado, tenho direito à solidão do meu pensamento, falado só com Deus. Mas terá Deus tempo para as pessoas mais simples, como eu que não disponho da sabedoria para entender os meandros deste mundo? Dizem que tem. Ele está em todo lugar, sabendo de tudo. O que me intriga mais é entender o começo de tudo isso. Das ruínas, das dores dos homens, do acerto de contas, do juízo final. Para que criar uma coisa torta, mandar endireitar e castigar se ela não se endireita? Não seria melhor criar logo a coisa certa, a criatura do bem? É, vai que ele só criou e deixou o homem decidir para que lado anda...sei não. Se deixou por conta do homem, no meio do caminho ele entortou, que nem fez Adão. Só se foi isso.

Estou pagando alguma coisa? Não matei nem roubei. Isso eu sei. Tive rancores... Sei de mim que os rancores que tive não vieram de graça. Foram cozinhados no fogo brando dos outros. Será então que a desgraceira dessa vida são sempre os outros? Pode até ser, mas eu não posso existir sem o outro.

Dizer que Ele distribuiu com igualdade as desgraças e a felicidade é bonito demais mas não parece fazer muito sentido quando se mira no alheio. Hã-hã. Mas de fato tem umas alegrias que Ele deixou ao largo para qualquer um. Até para mim! Que seja uma risada verdadeira, um filho descobrindo o segredo das coisas, o vento macio batendo no rosto, o corpo quente de Rosário...É... mas aquele que muito tem,  olha mais adiante, quer muito mais e não pode ver o que já tem de jeito nenhum. Que já está bom demais. Isso é que não. Mereço mais e mais,  é o que pensa o sujeito.

A Professora Altamira disse que eu penso demais e que a vida não se explica com tantos pensamentos. Que ela é simples. Que Deus fala é através das coisas todas que vemos, das borboletas, das plantas todas, das águas que correm sem cansar não sei para onde. Ela tem muita sabedoria, uma sabedoria diferente. Diferente também é a alegria das pessoas. Elas se alegram por coisas diferentes. Aquilo que é uma alegria para mim, pode não fazer sentido algum para outro. O que para mim é uma benção pode parecer para Sr. Virgílio como nada mais que uma obrigação de Deus para com ele. É assim mesmo. Minha alegria maior agora é  chegar logo à cidade, achar o farmacêutico e trazer o remédio para curar meu menino do meio. Esse é o sonho do momento.

Eu tinha sonhos, não aqueles de grandeza do meu falecido irmão que levantou voo para a cidade grande, mas sonhos de pobre, o senhor sabe, umas miudezas aqui, outras acolá. Uma casa melhor, com água na pia para a Rosário não ter que carregar balde, coisas assim. O chão de terra batida não me incomoda, está sempre fresco que a Rosário é muito asseada. Mulher de grande valor. Eu queria dizer a ela " eu te amo", como dizem as pessoas instruídas, mas isso nem combina comigo. Seria difícil demais de dizer.  Ela também não saberia ouvir isso nem nunca  me disse coisa igual. Nunquinha. Mas o compadre Ramiro já me disse que o amor não precisa ser dito, é nos gestos que está dito. Compadre Ramiro estudou até no ginásio dos padres, sabe de muitas coisas."

Na curva da estrada se aproxima uma caminhonete levantando poeira com aquele cheiro bom de gasolina e pneus. Deve ser Sr. Virgílio que ruma para além da vila de Abadia, levar os meninos para o colégio no Seminário de Cristo Jesus. " - Sobe aí atrás Seu José! Vamos economizar as pernas. Indo para onde?"

"Que sorte das grandes é a minha. Agora sim,  eu chegarei mais rápido. Meus pés cansados serão poupados, meu filho doente receberá seu remédio mais rápido e se Deus permitir vai ficar são.

Era como um sonho poder atravessar aquelas colinas empoeiradas deslizando como se estivesse no céu. Deve ser assim no céu. Deslizando de um lugar para outro sem esforço, sem cansaço, com o vento batendo no rosto, deve ser assim para todos. Carroceria de caminhonete para todos. Só que Sr. Virgílio achava natural. Mesmo a boleia. Para mim era um sonho. Eu estava indo como quem estivesse no céu."
O céu de um pobre lavrador.

sábado, 31 de agosto de 2013

Os Versos que eu não fiz

"O barro ficou marcado
 aonde a boiada passou..."




Quando ouvi estes versos pela primeira vez, me fiz uma pergunta: como não fui eu que fiz?


Quase dá para sentir o cheiro da relva fresca, da terra encharcada, do pelo molhado do gado.

O céu escuro prometendo muito mais chuva e um frescor úmido no ar. Animais alvoraçados. De vez em quando um berro tristonho de um bezerro apartado da mãe. 

Alguém joga milho no terreiro entoando "pururutiti, pururutitiiiiiii"  e como por mágica, as galinhas se aproximam. 

Laranjeiras em flor soltam um aroma adocicado no ar, mas estas flores são das abelhas. Uma majestade delas. Nem se aproxime.

A boiada é tocada para longe do curral. Em um passo lento, porque gado nunca tem pressa,  todo o rebanho vai seguindo  em direção à serra, incentivados por uma criança.

E "o barro ficou marcado
 aonde a boiada passou..."

A chuva que cai novamente enche de água os sulcos deixados pelas pegadas do gado e as crianças chamam isso de "angu com leite". É Inexplicável para um adulto. Nem tente entender. Mas para uma criança, faz todo sentido...

Algumas pessoas acreditam que tudo o que pensamos já foi pensado antes. Todos os pensamentos estão aí, no mundo das ideias, e serão captados de alguma forma por alguém devidamente preparado para recebê-los. Pois estes versos já tinham dono. 

Ai de mim.





NA
Os versos citados no topo são de Tom Jobim/Luiz Bonfá)

terça-feira, 27 de agosto de 2013

A Escolha de Deus


 O Arcanjo Miguel - aquele que protege os leoninos, estava muito atribulado quando chegou até o Chefe. Ele era um pouco míope, um pouco desajeitado,  volta e meia confundia os pedidos que recebia, perdia as coordenadas e tinha medo de ser demitido. Mas era um bom sujeito.

Foi logo dizendo ao Chefe:
- Deus, é o seguinte: eu recebi um pedido da Aparecida e do Paulo Santos. Eles querem uma menininha!!

- Já a localizou entre as 800 menininhas disponíveis? traga-a a mim, me dê o papel para assinar e leve-a com cuidado!
- Pois é...aí que tá: Aparecida não me deu as coordenadas. Ela disse assim: "você vai confundir tudo  no caminho. Fale direto com Deus e ele resolve isso lá para mim! Ele conhece a minha história desde o princípio".  Vai daí que...eu não tenho as coordenadas.
- Hum...esperta ela.
- Hã?
- De fato, tenho tido umas reclamações do seu trabalho, Arcanjo. Já tem gente dizendo que você entrou aqui sem concurso, fisiologismo, essas coisas. Abre seu olho.
- Eu?
- Sim. Outro dia você entregou uma menininho comunista  para um casal de extrema direita. As reclamações depois vêm direto para mim.
-Mas é que com a iminente queda do muro de Berlin para daqui a ...
-Esqueça. Ossos do ofício. Eu resolvo isso para a  Aparecida! Ela confia mesmo em mim.

E eis que Deus apontou o dedo na direção leste, do sol nascente - claro, e um facho de luz iluminou umas cabecinhas entre as 800 menininhas que estavam disponíveis, todas muito entretidas com suas brincadeiras.
- Me traga aquela de olhos negros, da cor de jabuticaba. Rápido!
- Ah, beleza, olhos de jabuticaba. Já sei qual!
Miguel voou para lá e apontando uma menininha de vestidinho rosa e gritou:
- É esta, a Dominique, que está lendo Chapeuzinho Vermelho, certo?
- Não, abestado! mais à direita!
-Ah, claro! então é a Brigite, a de vestidinho verde, que está brincando de boneca!
- Não, criatura!  preste atenção, um pouco mais atrás
- Ah bom, entendi: é a Eloah, aquela com roupinha da Xuxa!
-Affe! quanta incompetência meu Deus (epa! sou Eu mesmo!!) será que vou ter que voar até aí?
- Hã?
-  Preste atenção Miguel: é essa aí do lado, com este vestidinho de poás, lendo Evangelion!
- Captei,  Deus!!!!!!!!!!é a Amanda!!!!!!!!!!!!!!
- Ufa! Finalmente! traga-a para minha autorização.

O Arcanjo Miguel pegou a menininha de vestidinho de poás pelas alças, que recolheu os pezinhos qual trem de pouso,  e a entregou a Deus junto a uns papeis para sua assinatura. Quando ia assinar, Deus percebeu que faltava algo:
- Cadê o carimbo Miguel?
- É que...hã...quem carimba é Rafael, mas ele está em missão na África
- Haja Deus! Tá. Eu mesmo carimbo.
- Falha nossa...mas assim que Rafael voltar...
- Ok ok ok!. Leve essa linda menininha com muito cuidado e muito amor para Minas Gerais.
- Tá.
- E fala para a Aparecida que Eu,  daqui da minha nuvem de 1000 megatons, estou de olho em tudo, zelando, protegendo, segurando a peteca, atendendo todas as solicitações, como sempre; e que Eu estarei sempre à disposição. Usei as melhores coordenadas para esta escolha. Quero um ótimo retorno deste investimento.
- Tá
- ´Tra coisa:  nada de deixar a menininha comer muito doce. Estraga os dentes. E uma das minhas coordenadas é um lindo sorriso.
- Tá. E...batata frita, pode???
- Vai logo, abestado!!!

E assim, me foi entregue uma menininha em 15 de agosto de 1987, de nome Amanda, dentro das coordenadas de Deus.







Imagem: Asuka Langley Soryu - personagem de Neon Genesis Evangelion




segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Breve Ensaio Sobre as Lágrimas

Lágrimas não deveriam ser estancadas. Elas não deveriam obedecer regras, regulamentos e coisas afins. Deveriam ser livres para sair do não manifesto para o manifesto quando bem sentir vontade...

Sim, lágrimas deveriam ter seus direitos codificados, respeitados e preservados. Elas são modestas, não reivindicam quase nada, apenas o direito de saírem livremente pela porta, quando chega uma necessidade premente de se libertar.

Lágrimas não deveriam ter que obedecer a um chefe tirano que lhes impõem normas, lhes barram a caminhada e exige passaporte e visto para sua viagem.

Lágrimas não deveriam aterrorizar os orgulhosos senhores que as mantêm prisioneiras sem poder se expressar, contar sua história, seus momentos de dor ou de felicidade intoxicante. É, esses últimos existem por mais paradoxal que possa parecer!

Os olhos, que tão bem as conhecem, sabem que há lágrimas e lágrimas.
Amargas, como as de Petra Von Kant, doces, emotivas,  doloridas, piedosas...tantas mais!

Umas são serenas, lançam um pequeno marejar e voltam humildes para o fundo da alma.

Outras são teimosas, rompem a barreira à força, te faz refém e só param quando esgotam todo o arsenal.

E há aquelas mais perigosas que são vingativas. Refreadas em sua trajetória normal, se recolhem inconformadas, passam por uma metamorfose e se instalam em outras partes do ser, levando a dor da alma para o corpo e vice-versa.

Sejam de que tipo forem, no final elas sempre vencem.

.                                                Mulher Chorando - Picasso


domingo, 25 de agosto de 2013

MINAS GERAIS

Eu só queria saber
O que há detrás daquele monte
Você que o enfrentou sem esmorecer
 Por favor, me conte?

 - Criança, nada tens a temer
Comece a subida e levante sua fronte
O que verás ainda antes do entardecer
É que detrás deste, existem outros montes...
É Minas, é a vida.



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segunda-feira, 30 de agosto de 2010

10 COISAS SOBRE MIM




10 COISAS SOBRE MIM

* Meu nome é Aparecida Duque e tenho vários apelidos, um deles é Badu, personagem (masculino!!) do conto "O Burrinho Pedrez" do livro Sagarana de Guimarães Rosa

* Eu sou de Virgem, tenho alma de artista e mania de organização. Mas não tenho tremores nas mãos...

* Adoro gatos. Todos são lindos e adoráveis.

* Sou uma leitora voraz e meu livro número um é Irmãos Karamazovi de Fiòdor Dostoievski

* Amo cinema e idolatro a parceria Spielberg& John Williams e o diretor Ridley Scott.  Filmes que vejo e revejo são  Minority Report e Blade Runner.

*Gosto da música Pop internacional e das clássicas, especialmente Mozart; amo o violoncelista Yo-Yo Ma.

*Eu acredito em visitas de OVNIs e acho que Roswel aconteceu de verdade...já vi algo!

* Sou uma mulher que aprecia física quântica e procura compreender a Relatividade de Einstein, na medida do possível...

*Estudei Direito embora flertasse com jornalismo. Agora penso em estudar filosofia para esta etapa da minha vida. Estou pensando.

* Tenho uma tendência moderada à misantropia...nada grave.

*Se pudesse escolher, teria nascido em Manhattan. Até mesmo a solidão em NY é glamurosa!
30 Agosto, 2010

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Candeia e Eu


Eu que venho de tantas batalhas
Peço-lhe licença, mestre Candeia,
Também vivo a rir para não chorar

Também eu preciso ir,
Ainda não sei bem aonde
E procuro sem cessar
A fonte de minhas águas

Mas hoje, lágrimas estancadas podem transbordar
Só hoje.
Amanhã, o que restará de mim sob as lágrimas?

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Quem é ela, essa tal FELICIDADE?






O poderoso e bem sucedido artista olha com os olhos marejados de lágrimas o casebre onde viveu sua pobre infância e diz: “aqui eu passei os dias mais felizes de minha vida”.

Sim, ele hoje mora em mansão, tem carrões, roupas de grife, prestígio, namora belas modelos e tem tudo o mais que o dinheiro compra. Mas naquele casebre teve os melhores dias de sua vida!.

Dá pra entender essa tal felicidade?

Definitivamente não!.
Nossos melhores momentos estão enraizados no ser. O ter é acessório que buscamos indefinidamente para suprir o ser, mas quando precisamos nos lembrar de um momento de felicidade intoxicante em nossas vidas, vem à nossa mente momentos que não podem ser comprados a nenhum preço. Nem todo o ouro do mundo poderá trazê-los de volta com todas as suas sensações.

Há um exercício para alterar o humor em que devemos nos fixar, de olhos fechados, em situações para despertar de forma positiva os cinco sentidos: pensar numa imagem linda, um por do sol, uma lua cheia, um cometa; se lembrar de um sabor delicioso, como um sorvete de jabuticaba, um churrasco; concentrar-se num cheiro inebriante, como da flor de jasmim do cabo, um perfume; pensar na música que vc. adora ouvir e finalmente para o tato, sentir que toca o pelo macio de um gatinho, uma colcha de seda, as espumas borbulhantes de uma onda no mar, enfim.

Sempre que faço esse exercício, me pego às voltas com as coisinhas mais simples e encantadoras de minha infância.

Pode ser a visão da lua cheia numa noite no campo. Minha mãe, eu e uma vizinha pela estrada que liga o vilarejo à Fazenda Velha. A lua tão clara que se poderia apanhar uma agulha no chão. Vínhamos de mãos dadas. Mamãe no meio, segurando em cada mão uma de nós. De tempos em tempos, Wanda e eu, trocávamos de lado para aquecer a outra mão, porque mamãe tinha as mãos quentes e nós, meninas, morríamos de frio.

Se não quero pensar na lua e todo o seu chamamento ao romance,  tive também - pasme, leitor,  um cometa para olhar! Pouca gente viu um cometa de verdade. Em 1986 perdemos a chance de ver o Cometa de Halley em sua plenitude. Ele decepcionou. Quem viu, foi por telescópios, e Carmensita viu e disse que “era como "ver uma lâmpada acesa em meio a uma neblina. Nada de cauda”. Decepção geral.

Imagine, nós vimos um cometa de verdade, com cauda e tudo!

Numa madrugada fria de inverno, eu então menina de seis para sete anos, fui acordada pela minha mãe, e fomos ao quintal ver a “estrela de cauda”!. Durante alguns minutos mágicos, ficamos de pé apenas olhando o horizonte aonde o cometa se estendia reluzente, lindo, inesquecível. Sonhei com esse cometa por anos. Hoje estou certa se tratar do cometa Pereyra, com períodos de 901 anos, e que para os místicos, teria prenunciado a morte de John Kenedy que ocorreria em 22 de novembro daquele ano.
Alguém disse que ele viajava a grande velocidade e isso me impressionou mais ainda. Podemos optar pela visão da lua ou por este cometa que voltará em torno de 2869...

Chega! voltemos aos outros sentidos.

Com certeza o sabor será o de uma singela, porem deliciosa comida, um simples prato esmaltado com arroz, feijão, couve refogada e carne picadinha, feitos pela minha mãe, saboreado na cozinha, ao calor do fogão a lenha, sob o barulho aconchegante da chuva que caía à tardinha.

E o cheiro? Porque não das flores de assa-peixe no auge do calor do meio dia – e lembrando Guimarães Rosa: “para mim, até hoje, o canto da fogo-apagou tem um cheiro de folhas de assa-peixe.”

E para os ouvidos, temos aquela música que tocava ao entardecer, encerrando a programação de uma rádio qualquer do Rio ou São Paulo,de Simon and Garfunkel – (The boxer)
“ I am just a poor boy
Though my story's seldom told
I have squandered my resistance…”

E por fim precisamos tocar em algo: pode ser aquele gatinho sonolento na volta do meio dia, que abraçávamos calorosamente, acariciávamos seu pelo lisinho e ele continuava sonolento...

Afinal, quem é ela, essa tal felicidade?

Pensando bem, ela zomba de nossa estupidez.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

MENINA






















Em brumas espessas ela procura
Busca a cor dos dias passados
Vai falando consigo mesma
Fugindo por entre veredas

Alça voo no balanço, voa alto
Fala com árvores amigas
Agora toma banho no riacho, e
Improvisa uma cantiga

Conversa com os Beatles
Escreve uma reportagem:
O homem chegou à lua
E ela...espera um beijo ao luar

Porque sonhavas tanto acordada?
Menina, será que já sabias
O muito que não terias?

Nunca fostes uma menina
Pensavas como pensa a anciã
Sobre os pequenos ombros
A vida carregava

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Estrelas Pássaras





















Oh! sei que vivo sob a espada de Dâmocles!
Quem me dera dela safar-me e correr o mundo
Mas que mundo?

O meu mundo é o das estrelas
Ele é de um azul infinito

infinita solidão

Quem dera perder-me neste infinito escuro
Onde só sua luz brilhe para mim
E as estrelas são apenas pássaras

Quem me dera só nós dois
Ninguém mais
E o infinito à nossa espera...

sábado, 17 de julho de 2010

Badu, a irmã mais nova dos Beatles




O almoço está quase pronto. Um cheiro de refogado no ar penetra as narinas e aguça a fome. O tilintar de vasilhas na cozinha soa como bálsamo aos ouvidos das crianças. Primeiro porque mamãe deve estar muito ocupada para prestar atenção em qualquer coisa que não sejam as intermináveis lidas do fogão. Segundo porque há promessa de almoço pronto em breve na casinha singela da Fazenda Velha, nos confins das Gerais.
Então chegou a hora especial. Não, não é o almoço, leitor apressado!
Badu - a filha caçula de 7 anos - é chamada para uma tarefa importante: precisa ir até a horta apanhar um pé de alface, salsa e cebolinha para a salada do almoço. Precisa ser fresca, por isso deve ser apanhada na hora em que o almoço esta quaaaaase pronto.
Badu sente aquela alegria no coração que só as crianças podem experimentar. Sensações que tornam a vida preciosa. Afinal ela tinha um encontro esperado e que só pode acontecer quando ela está a caminho da horta, sozinha, sem testemunhas.

Na pequena alameda ensolarada que leva ao vale do córrego, a estradinha serpenteia por entre uma relva baixa que delineia o caminho. Arbustos crescem e florescem em volta. Um vento leve deixa um cheiro de flor de assa-peixe no ar.
De repente, ao seu lado, Paul McCartney fala com certa melancolia na voz:
- Mas então Badu, quando vc. virá para Londres?
- Agora não posso Paul. Tenho muitos compromissos por aqui.
- O problema Badu, é que sentimos muito sua falta. Você é nossa irmã mais nova, temos muito apreço por você e também precisamos de sua ajuda com uns assuntos.
Badu, apesar de muito jovem, era muito sensata. Todos os irmãos a ouviam e sempre a consultavam no momento de tomar as decisões mais difíceis.Não era fácil ser irmã dos Beatles.
- Mas Paul, vocês não estão indo para Nova York?
- Sim, você nos acompanharia até lá. John Lennon quer muito conversar com você antes de finalizarmos o próximo disco. Sabe Badu, não tem sido fácil para nós. Só quando venho aqui sinto um pouco de paz. A vida em Londres é muito tumultuada. Os fãs exasperados tornam nossas vidas um tormento.

Badu caminha lentamente ao lado de Paul ouvindo-o com atenção e nem sequer percebe que está na horta, ao lado do canteiro de alfaces. Agacha-se e de um golpe rápido e firme arranca um pé de alface que lhe pareceu mais viçoso, cheira as folhas tenras orvalhadas - Parece bom esse, disse Paul.
- Um momento Paul, preciso de umas cebolinhas e salsa também. Vc. sabe, mamãe é muito exigente com as saladas.
-Eu posso lhe ajudar, Badu!
-Não se incomode. Me fale da sua inspiração. Como anda?
- Estou com umas idéias. Mas preciso primeiro lhe mostrar alguns rascunhos. Você poderá me dar algumas opiniões.
-Com certeza, Paul. Me des
culpe pela falta de tempo ultimamente. Nas férias poderei me dedicar mais a vocês quatro. Agora vamos andando – disse enquanto ajuntava as folhas numa sacolinha – pois já demorei demais.
-Claro. Vamos andando.No caminho podemos falar mais.

Enquanto subia de volta à casa, Badu intimamente lamentava a distância tão curta para falarem de tudo o que era importante. Seguia lentamente tentando ganhar mais tempo ao lado do irmão. Parou rapidamente para se despedir:
- Paul, amanhã nesse mesmo horário nos falamos novamente, OK?.Até lá, não tome nenhuma decisão sobre a viagem para Nova York. Farei o possível para ir com vocês. Não posso falar mais. Mamãe me espera. Deve estar impaciente.Mas antes, quero parabenizar a todos por "Twist and shout";  é linda demais da conta, gente!
- Obrigada mana! mas se não fosse sua ajuda, nunnnnca a  teria escrito!
Neste momento Badu ouviu um grito vindo da cozinha :
- anda menina!!!!
Foi a conta de dizer : tchal!

Badu  então deu uma corridinha, subiu rapidamente os degraus que dão à cozinha e entrou de um salto.
-Que demora é essa menina? cruz credo!
-Tá aqui mãe! Entregou faceira a sacolinha de verduras à impaciente mãe e se afastou para longe da bronca.

Ai, as mães! elas são legais mas nunca entendem bem todos os nossos afazeres secretos. Ainda mais quando se tem quatro irmãos famosos na Inglaterra.