sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Não, camarada Stalin! Não funciona.



Poderíamos simplesmente deletar nossos maus momentos?
E quem sabe, eternizar os bons?

Stalin deletava das fotos aqueles que se tornavam desafetos. Foi assim com Trotsky. Outrora queridinho do establishment, caiu em desgraça em uma disputa interna do partido em que o Stalinismo venceu. Tornou-se persona non grata, banido, perseguido no exílio e finalmente assassinado no México. E como se não bastasse, apagado das fotografias oficiais. Assim foi também com Nikolai Yezhov, o anão sanguinário, chefe da polícia secreta.

As autoridades soviéticas, acreditavam que podiam reescrever o passado, apagando algumas figuras que expurgavam da história e tomavam medidas que incluíam a falsificação e adulteração de imagens, destruindo filmes e em casos mais extremos, matando famílias inteiras.


Bem, afora os gulags, o exílio na Sibéria, as execuções, essa limpeza das fotos  tinha lá sua sabedoria. É fato que Stalin não deve servir de exemplo para quase nada nessa vida, exceto seu gosto por ler grandes autores - a despeito de ter enviado vários deles para a Sibéria. Mas isso na Rússia nem é mérito porque o país sempre foi o berçário do que há de melhor na literatura mundial. Senão, como poderia  um mesmo país oferecer ao mundo Dostoiévski, Tolstoi, Boris Pasternak  para citar só três? 


Vamos voltar ao nosso eu singelo: e se pudéssemos deletar das fotografias de nossas vidas as presenças e as memórias que se tornaram incômodas?
E se pudéssemos silenciar as palavras que não deveriam ter sido ditas; parar o tempo  justamente no momento daquele ato que hoje reprovamos, e evitá-lo; apagar as palavras mal escritas e quem sabe não ouvir as mal faladas?
E se talvez seguindo essa mesma lógica pudéssemos também eternizar os momentos inesquecíveis de nossas vidas?

Não, camarada Stalin. Não funciona. Vamos pensar em outra coisa.



                                                                 Stalin e Yezhov
                                                                Stalin sem Yezhov...

A Décima Musa






Eu perdi o juízo
Culpa dos teus cabelos 'negros como a asa da graúna'
De tua boca singela murmurando tolas tagarelas
À beira do mar

Não me reconheço, desejando te amar
Quando dei por mim te beijava
Sem medo e sem pressa
À beira do mar

Qual Safo me enrosquei em ti
Isso não quero apagar
Todo o meu juízo perdi
À beira do mar.






sábado, 23 de novembro de 2013

Bem-te-vi



Com os primeiros clarões do dia
Vem uma doce sensação:
É quando piam os pássaros
E meu gato quer companhia;
O cão do vizinho ladra
Ouço passos na calçada
Alguém andando à toa
Vem uma doce alegria
Vontade de ler Pessoa
A rua ainda está vazia
A brisa da madrugada
Da noite foi o que restou

Retruca um bem-te-vi:
É muito cedo ainda
Seu tempo não acabou...




quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sara e o Professor de Biologia

Sara tomou uma importante decisão: hoje, definitivamente, direi ao Professor Fallieri que estou apaixonada.

Fallieri era o professor de Biologia do colegial. Para o padrão da moçada, não era ele exatamente um modelo sedutor: tirando os olhos claros escondidos atrás de grossas lentes, nada nele parecia muito atraente. Menos para Sara, cujo coração disparava desde as primeiras horas do dia, nas terças e quintas, quando tinha aulas com ele.  

Há muito  que o amava em silêncio obsequioso. Por vários motivos, sabia  que seu professor de Biologia também lhe dedicava especial atenção. 

A caminho da escola, Sara pensava consigo mesma e planejava incansavelmente como declararia o seu amor. De certa forma estava segura. " Acho que ele também está apaixonado por mim. Dá aulas olhando para mim. Magnetizava toda a turma quando falava e falava sobre  DNA e RNA mas era como se somente eu estivesse na sala. Ele olhava para mim enquanto explicava. E tem mais: já elogiou meu perfume. Achou suave. 

E teve aquela vez que ele comentou comigo que publicara em importante jornal americano, seu estudo sobre o Ácido Ribonucleico, o menosprezado RNA. Me interessei  de pronto, como faria qualquer mulher apaixonada e me lembro bem: na aula seguinte ele trouxe os dois grandes volumes encadernados da revista Science com seus artigos.Corri os olhos com satisfação, afinal era um artigo científico em inglês, difícil de ler. Elogiei muito. Mesmo minha mais invejosa amiga achou aquilo muito relevante - "ele trouxe os livros para vc. ver, menina! Pasmei!!"

Haverá algum risco de ele me achar idiota? não, não e  não. Eu sou a melhor aluna da classe. Sei tudo sobre RNA e DNA e tirei total na última prova. Haverá algum risco de ele ser gay? não, não e não. Rogério aventou essa hipótese só porque gosta de mim e vê nele um concorrente superior. No intelecto, claro. Mas isso é o que importa mais.

Minha prima Rosalba que sabe de quase tudo -  já transou com pelo menos dois namorados e experimentou uma garota sueca que a hospedara em um intercâmbio,  me disse do alto de sua experiência que 'há um fascínio do professor sobre os alunos. É normal admirarmos quem nos ensina. Mas da parte dele, não espere nada'. Será? Ela não sabe tudo. Nunca amou um professor de Biologia.

Ah, meu coração! sempre te segurei com rédeas curtas. O coração é esquisito. Quer comandar. Às vezes age como um potro indomado. Sai atropelando tudo. Se não tomarmos as rédeas, atropela até a razão. Mas hoje, soltarei as rédeas, juro. Direi que o amo desde a primeira aula."

Já por três vezes Sara decidira declarar sua paixão, mas fora interrompida por eventos fortuitos. Uma vez, chegou apressado outro professor antes que ela abrisse a boca. Outra vez ele ia muito apressado para a primeira aula, não dava para se declarar num momento daqueles. E teve uma terceira tentativa em que caminharam lado a lado pelos corredores, sozinhos, mas ela perdera a coragem. Mas hoje... será hoje. 

Lembrava que o professor costumava se assentar em um banco,  próximo à sala dos professores, na alameda que liga a administração às salas de aula do térreo. Ali ele costumava ler algo, ou folhear anotações. Sara já se sentara ali esperando que ele pudesse vir até ela. Com sorte, ele estaria lá hoje, sozinho. "Vou chegar mais cedo. Estou linda hoje, de suéter branco.

Como vou dizer a ele, hein? -  professor, posso falar com você? Não, ele pode dizer que está sem tempo. Melhor ir direto ao ponto. Professor, eu preciso lhe dizer uma coisa. Mas se ele disser: diga... eu posso congelar. Não!  Vou direto com a frase toda: 'professor eu preciso lhe dizer um coisa... -  dou um pequeno espaço de dois segundos e  completo - estou apaixonada'. Bem, há  risco de ele me perguntar:  'por quem? ' ou pior, 'quem é o felizardo?' Não, não, não, isso não pode acontecer. Posso perder a coragem de completar a resposta. Melhor ser mais direta e dizer tudo de uma vez, de um só golpe:  'Professor, eu preciso lhe dizer uma coisa...estou apaixonada por você.'  Eureka! Está decidido. Agora é só treinar mais um pouco."

Sara chegou meia hora mais cedo, por volta das 18,30H de uma noite especialmente linda. Fez um lanche rápido de pão com queijo quente na chapa e foi à toalete conferir se tudo estava ok.  Estava.  Tirando a ansiedade, estava ótima. Desceu as escadas que dão para o pátio interno e divisou a alameda de bancos...lá estava o professor sentado, solitário em meio a papéis e anotações, distante, de jaleco branco, cabelos um pouco desalinhados... "oh meu Deus! Hoje,  abrirei meu coração".

E decidida, se dirigiu para lá.

FIM






quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Só Hoje



Hoje quero ser aprisionada na teia de tuas palavras e sonhar,
Sonhar por hoje preciso  para não me matar. Só por hoje.
Amanhã, eu me renderei às garras da realidade.

Conte-me uma mentira, uma mentira benfazeja
Só hoje, prometo acreditar
Garimpe palavras e me faça  um verso sem nexo
Prometo não desdenhar
Qualquer verso que engane minha dor banal
Prometo ler até o final
Mergulhe no sonho, faça-o por mera bondade
Só hoje.Amanhã, eu me renderei às garras da realidade